Francis Obikwelo (nem sei bem se é assim que se escreve...) ganhou uma medalha de prata para Portugal na prova mais mediática das olimpíadas: Os 100 metros planos!
Nunca Portugal tinha sequer concorrido a esta prova, e eis senão quando, através de um atleta de origem nigeriana, se guinda ao segundo lugar mundial da categoria.
Obikwelo "desertou" de uma equipa de futebol que cá veio jogar um torneio, tinha ele 16 anos. Ciente de que queria escapar ao triste destino, quase inevitável, dos habitantes da África subsahariana, escolheu Portugal. Em circunstâncias normais poderíamos dizer que escolheu mal, pois infelizmente o nosso país é parco em visão neste tipo de coisas.
O homem ficou por cá, trabalhou no duro, andou pelas obras de construção cívil, até que alguém espantosa, ou casualmente, o descobriu.
Começou então a treinar no Belenenses, passou para o Sporting e agora aí o temos como sendo o 7º homem mais rápido do mundo de todos os tempos.
Terminada a prova e confirmada a sua 2ª posição, Obikwelo solicitou uma bandeira portuguesa e enrolado nela deu a sua volta de honra à pista.
Logo foi montada uma enorme "feira de vaidades" à sua volta, na qual toda a gente se aprestou a reclamar o seu pequeno quinhão de glória. Em relação ao atleta, foi-lhe perguntado se sentia mais português ou mais nigeriano. Em mau português, como seria de esperar, Obikwelo explicou que era nigeriano de nascimento, mas português de coração (a bandeira na qual ele estava enrolado era mais eloquente do que quaisquer palavras). Por fim perguntaram-lhe a quem dedicava ele tão importante vitória. Seria ao seu país de acolhimento, ao seu Clube, ao seu treinador?
Num compreensívelmente mau português, Francis Obikwelo, sem qualquer hesitação, dedicou a sua vitória a todos aqueles que por razões físicas não tinham as mesmas possibilidades do que ele.
Em suma: Francis Obikwelo, 2º classificado nos 100 metros planos das olimpíadas de Atenas, o 7º homem mais rápido da história, dedicou a sua vitória aos deficientes!
No apogeu da fama, no altar da glória e envolvido por toda a vaidade alheia, este homem simples, que conheceu de perto o sofrimentro, teve o seu pensamento para aqueles a quem a vida não favoreceu.
Obrigado Francis!
Não pela medalha de prata, mas pela lição de humildade e humanidade que foste capaz de nos dar, num momento tão particular, em que estamos habituados a que cada um só olhe para si próprio sem se preocupar mínimamente com os outros, e muito menos com os menos favorecidos.
Após este tão nobre gesto, na minha opinião, a medalha de prata que tão festejada foi, não passa de bijuteria, pois o verdadeiro ouro reside no teu coração!